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20 de outubro de 2026

Como nasceu o metro quadrado mais desejado do país? Os engenheiros pioneiros de Jurerê Internacional abrem o jogo

Vista aerea de Jurerê

Em edição histórica de número 50 do Podcast Jurerê+, os engenheiros Hélio Chevarria e Carlos Leite revelam os bastidores inéditos, os desafios técnicos e as decisões urbanísticas que transformaram uma restinga isolada na década de 1980 no bairro planejado mais icônico do Brasil.

Quem caminha hoje pelas alamedas arborizadas de Jurerê Internacional, cercadas por residências sem muros frontais, fiação subterrânea no Amoraeville e um parque linear à beira-mar, dificilmente imagina o cenário que existia ali no final da década de 1970. Antes de se consolidar como referência em qualidade de vida e valorização imobiliária, a região não passava de uma imensa gleba de areia plana, sem energia elétrica, sem água encanada e acessada apenas por uma precária estrada de terra.

Para celebrar o marco do 50º episódio do Podcast Jurerê+, o apresentador e sócio da Imobiliária Viva Jurerê, Norton Willrich, recebeu os dois profissionais que estiveram na linha de frente dessa transformação: Hélio Chevarria, o engenheiro responsável por implantar o loteamento aos 30 anos de idade, e Carlos Leite, atual presidente do Sinduscon da Grande Florianópolis, que iniciou sua trajetória no projeto em 1980 e tornou-se peça-chave na consolidação do bairro.

Mais do que relembrar o passado, o encontro cumpre o papel de registrar a memória viva de Florianópolis. Para Norton, documentar a origem do empreendimento pela voz de quem executou a obra é essencial tanto para os antigos moradores quanto para os novos investidores que chegam diariamente da capital, de outros estados e do exterior. “Jurerê é único de verdade e tem muita história que precisa ser contada. Faz parte do nosso compromisso trazer informação relevante e mostrar que essa valorização não aconteceu por acaso: ela foi planejada e executada com excelência”, destacou o anfitrião na abertura do episódio.

Os engenheiros Hélio Chevarria e Carlos Leite contam em detalhes o início da concepção do bairro de Jurerê Internacional

A materialização de uma visão ousada

A concepção de Jurerê Internacional nasceu do espírito empreendedor de Péricles de Freitas Druck e do olhar visionário de seu irmão, Eurito Druck, à frente do grupo Habitasul. Ao lado do arquiteto Sérgio Sclovsky, eles buscaram referências internacionais, como Miami, e trocaram experiências com o outro único projeto de bairro planejado litorâneo da época no Brasil, a Riviera de São Lourenço (SP).

Porém, para transformar maquetes e ideias arrojadas em uma estrutura urbana funcional, era preciso vencer barreiras físicas severas. Foi nesse ponto que Hélio Chevarria deixou São Paulo rumo à Ilha de Santa Catarina, após um convite direto no alto do morro com vista para a praia. “O empreendedor e o sonhador precisam de quem faz, e o engenheiro é aquele que materializa o sonho dos outros”, definiu Hélio ao recordar o impacto de assumir uma obra daquela magnitude tão jovem.

A parceria com Carlos Leite começou ainda nas obras do antigo Jurerê Praia Hotel — erguido em tempo recorde para receber os futuros compradores do loteamento. Leite atuava na gerência de lazer náutico no verão e, em 1982, ingressou como estagiário obrigatório de engenharia na equipe de Chevarria. A identificação com o propósito do bairro foi imediata e definitiva. “Enquanto ele batia prego na obra, eu cuidava dos barcos na praia; depois entrei para a equipe técnica, passei por grandes desafios para resolver e acabei transformando Jurerê praticamente no meu projeto de vida”, relembrou Carlos Leite, que, assim como Hélio, reside no bairro até hoje.

Soluções do zero: do lago artificial ao conceito de “Cidade Esponja”

Sem suporte da rede pública na época, a equipe precisou ser autossuficiente. Para atrair 100 operários para um local isolado, Hélio anunciou vagas na rádio oferecendo transporte, alimentação e salários acima do mercado, renovando a equipe semanalmente até formar um time de alta produtividade. A energia elétrica exigiu negociação direta com a presidência da Celesc, e o saneamento básico tornou-se uma bandeira inegociável do projeto.

Enquanto o padrão de Florianópolis na década de 1980 baseava-se em fossas e sumidouros — que contaminavam o lençol freático e a praia quando chovia —, a engenharia de Jurerê Internacional insistiu na implantação de uma rede coletora e estação própria de tratamento de esgoto, além de uma estação de tratamento de água assumida pela própria Habitasul.

O maior quebra-cabeça técnico, contudo, foi a drenagem e o aterro da área plana. Como trazer dragas marítimas da Holanda tinha um custo proibitivo, a solução encontrada pela equipe — com consultoria do especialista Abraão Hausman, que havia atuado em Israel — foi escavar o centro do terreno, onde o solo rochoso formava uma bacia natural.

Com o uso de uma vala perimetral para bombear a água e caminhões retirando a areia do fundo, nasceu o lago que hoje integra o Parque Péricles de Freitas Druck. “Desligamos as bombas depois de aterrar a área e, em dois dias, a cava encheu; o que era jazida de areia virou o nosso manancial de água e parte do paisagismo”, contou Hélio.

Carlos Leite ressaltou que esse sistema, somado ao escoamento superficial das vias e ao uso de blocos de concreto intertravados (inspirados em pavimentações de Blumenau), antecipou em quase meio século tendências ambientais contemporâneas. “O que hoje todo mundo chama na legislação de ‘cidade esponja’ — com reservatório de amortecimento de chuva e alta permeabilidade no solo — já tinha sido aplicado aqui em Jurerê há mais de 45 anos”, pontuou Leite.

O valor da renúncia e a alma do bairro

Outro ponto alto da conversa foi a revelação de como as diretrizes urbanísticas moldaram a estética de Jurerê Internacional. Ao contrário da tradição brasileira de construir grandes avenidas asfaltadas e paredões de edifícios colados à faixa de areia, o projeto apostou no Passeio dos Namorados — um verdadeiro parque linear —, em ruas sem saída (cul-de-sac), na ausência de muros frontais e na distribuição das áreas verdes ao longo das calçadas e canteiros.

Mais tarde, quando o plano diretor municipal permitia a construção de prédios nas avenidas principais do bairro, a própria desenvolvedora e a associação de moradores mobilizaram-se na Câmara de Vereadores para restringir o gabarito e manter a predominância residencial unifamiliar. “O Péricles sempre dizia uma grande verdade: o que mais vale em Jurerê é aquilo que nós não fizemos, as nossas renúncias em prol da qualidade de vida”, recordou Carlos Leite.

O episódio também trouxe à tona histórias curiosas e cheias de personalidade que ajudaram a construir a identidade local:

  • De Praia de São Francisco a Jurerê: Antes de ganhar o nome atual — popularizado pela antiga empresa proprietária das terras na região (Imobiliária Jurerê) e pela raiz indígena Y-Jurerê-Mirim —, as antigas cartas náuticas registravam a orla como Praia de São Francisco, fato que quase confundiu o comandante do primeiro transatlântico europeu a visitar o bairro nos anos 90.
  • A origem do Passeio dos Namorados e das ruas: Os nomes das vias foram escolhidos pela equipe técnica em um livro sobre fauna marinha (como Avenida dos Búzios, das Lagostas e das Raias). O famoso calçadão à beira-mar não foi batizado por motivos românticos, mas sim em homenagem ao peixe Namorado — embora o duplo sentido tenha caído perfeitamente no gosto popular.
  • O “Passeio do Encantamento”: Nos anos 80 e 90, nenhum cliente tinha permissão para comprar um terreno — nem mesmo pagando à vista — sem antes realizar um tour guiado de van para conhecer a estação de tratamento, a segurança e o conceito do bairro. “Nós não estávamos vendendo um lote, estávamos vendendo um projeto de vida e o ingresso para participar de um sonho”, afirmou Hélio.
  • A inovação do Amoraeville: Para valorizar os lotes mais afastados do mar, a engenharia buscou na Alemanha o sistema de esgoto a vácuo, implantou fiação 100% subterrânea, trouxe o paisagismo de Benedito Abbud e o urbanismo do suíço Michel de Fournier, unindo tecnologia de ponta ao resgate da cultura indígena Mbyá-Guarani.

Assista ao episódio completo (e prepare-se para a Parte 2!)

Essa viagem detalhada pela história da engenharia, do urbanismo e da visão empreendedora que ergueram Jurerê Internacional está disponível na íntegra no canal da Viva Jurerê TV no YouTube.

👉 Clique aqui para assistir à Parte 1 do Episódio #50 do Podcast Jurerê+

E fique ligado: como a história de Jurerê é rica demais para caber em um único encontro, em breve lançaremos a Parte 2 deste episódio histórico, onde Hélio Chevarria, Carlos Leite e Norton Willrich discutem a evolução do bairro, os desafios atuais e o que está projetado para o futuro de Jurerê Internacional. Inscreva-se no canal e ative as notificações para não perder!

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